Sábado 24 Maio 2014

Yesterday


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“Yesterday” surge de quê?

Pedro Augusto: “Yesterday surge de coisas com as quais me deparo todos os dias e que me reportam para algo longínquo; algo do passado que se deixa ver aqui e agora, mas que me lembra, ao mesmo tempo, que não é possível voltar atrás.”

A origem da paixão pela música é algo que nos torna mais envolventes quando falamos sobre a tua história. Ainda te lembras do primeiro contacto com a música? És capaz de descrever o sentimento que te percorre o corpo quando pensas nisso?

Pedro: “Eu tenho uma memória muito vívida e, por isso, lembro-me muito bem de imagens e sentimentos de quando ainda era bebé e tinha uma caixa de música em forma de pato, da qual eu gostava muito. Uns anos mais tarde, já em criança, lembro-me de reencontrar essa caixa, ouvir a música e sentir que aquela era a música mais maravilhosamente triste que eu já tinha ouvido. É um pouco desse “maravilhosamente triste” que eu, agora, penso estar em todos os meus temas.”

Como defines o som que produzes, fora dos paradigmas dos géneros musicais?

Pedro: “De opostos. É sempre etéreo, mas pode ser mais contemplativo ou mais ritmado. E, em geral, tenho fases em que gostava que fosse completamente contemplativo e outras, o oposto. Todos os álbuns acabam por ser um balanço entre as duas porque, precisamente, não seria honesto eliminar uma parte da minha experiência, que acaba transformada em música.”

Intimista e uma espécie de solitário, é assim que revejo a imagem da música que crias.  Sons melancólicos, a esperança. Um outro olhar sob a música. Como foi compor e escrever este álbum?

Pedro: “É sempre um processo longo. Comecei por, inconscientemente, gravar paisagens, em vídeo, sem mexer a câmara. Era apenas a passagem do tempo. Ao mesmo tempo, a palavra “espera”, “waiting” circulava em mim com muita força: nas minhas conversas do dia-a-dia, nas letras que ia fazendo… Era algo, pelo qual, eu sentia que estava a passar e, por isso, soube, primeiro que tudo, que esse seria o título do álbum. Os primeiros temas revelavam algo destrutivo – temas como o “The Beast” nasceram nessa altura – em que eu só se podiam ver “ruínas” a acumularem-se. Houve, depois, outros momentos em que tudo o que apetecia fazer era “dançar” sobre essas “ruínas” e, aí, surgiram temas como o “Destruction”.”

“A música não precisa de um público para existir”, palavras tuas. Qual é o papel da solidão, no meio da criação?

Pedro: “Muito importante. Acho que mesmo as bandas que optam por seguir a via comercial da indústria musical chegam a um ponto em que se apercebem que não podem fazer música com base nas expectativas de quem vai ouvir, porque, senão, caem numa espécie de labirinto sem solução que, geralmente, depois se revela na incapacidade de compor mais. O processo criativo é, nesse sentido, solitário. No meu caso, para além desta solidão, eu preciso de sentir uma solidão mais pessoal, que nada tem a ver com o estar sozinho ou não, mas mais uma solidão temporal – como se eu quisesse conhecer coisas que nunca mais se darão a conhecer; como, por definição, todas as coisas do que já se passou.”

Em que medida é que os prémios que arrecadaste ao longo dos anos contribuem para o desenvolvimento dos projetos que vens criando e em que sentido te dão mais força para continuares esta luta, num mundo musical tão robusto e complexo?

Pedro: “Estes prémios e iniciativas vão servindo para eu ir definindo e redefinindo a minha abordagem em relação à divulgação da minha música (e não da minha música em si). É quando entro neles e nas suas exigências que eu me vou apercebendo dos limites que eu estou disposto, ou não, a transpor. “

Curioso é o facto de lançares os teus álbuns apenas online, pondo de parte a venda nos mercados. Porquê essa opção? Qual o feedback que tens obtido?

Pedro: “Porque, no seguimento da resposta anterior, eu apercebi-me que fazer música é diferente de divulgar música e, por isso, eu nunca poderia colocar um preço num tema meu, sem dar a oportunidade dele ser disponibilizado gratuitamente. A música não tem que ser um produto e eu posso estar interessado e ter uma paixão em fazer música e não em fazer marketing, tornando-a numa “coisa”, num “objecto”. É, antes, uma partilha. Infelizmente, as noções de “qualidade” ou de “profissional” continuam a estar muito relacionadas com estúdio, editora, edição. É por isso que, perversamente, a divulgação é, hoje em dia, tendencialmente paga. Embora o feedback ao álbum seja bom, os moldes em que é lançado parecem, no seio da indústria, descredibilizá-lo, porque parece que, hoje em dia, a música vale cada vez menos por si própria.”

Para terminar e como no teu projeto “as apresentações ao vivo não fazem grande sentido”, será que a música vai persistir na memória de um público que não terá o prazer de te ver tocar?

Pedro: “É bom encontrar pessoas e sentir que a música teve algum tipo de impacto nelas. É como se houvesse algum tipo de afinidade entre quem faz e quem ouve. Acho que esse impacto pode advir mais da música em si, e não da experiência de ver “ao vivo”. Reconheço, contudo, que o tocar ao vivo é uma forma de divulgação do que se fez. Mas como o meu objectivo é menos divulgar e mais partilhar, acho que estou dependente da curiosidade das pessoas em descobrir coisas que ficam um pouco à margem meios mais comuns de divulgação.

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