Sexta-feira 06 Dezembro 2013

The Something Rain


O grande problema de escrever é começar. E o grande problema de escrever sobre música é escolher as palavras. Se escrever englobasse gestos, o meu texto estava então terminado. Mas a escrita é pensar nesses mesmos gestos e abri-los ao meio, como quem abre um livro ou um álbum.
Tindersticks, um nome que tem muito para dizer. Um nome difícil. Um nome sábio. Ouvir um álbum, dois ou três, ler sobre a banda, pesquisar sobre todos os álbuns… nada disto é tão necessário depois de se ter visto um concerto, onde se abrem ao público e se apresentam da mais límpida forma. Principalmente quando se trata de um dos melhores que se viu até aos dias de hoje.
Stuart Staples chega até nós através da sua deliciosa e suave voz, onde o lirismo fascinante nos derrete enquanto estamos perplexos a ouvi-lo. The Something Rain é recente (2012) e é a metáfora da simplicidade da música quando chega ao nosso ouvido. É um álbum que nos transporta para longe dos primeiros trabalhos da banda Inglesa, mais transparente no sentido em que demonstra a evolução de todos estes anos. Esta vertente tem muito mais jazz e suavidade, tem muito mais alma, encaixando assim numa doce posição da verdadeira essência dos músicos. Sente-se mais o improviso, o “tocar de olhos fechados”, o sentir. E é mesmo assim que se quer a música.
The Something Rain é um álbum de pormenores. Digo isto porque as músicas não variam muito na sua duração, mas os pormenores fazem com que estas se distingam e se tornem únicas. As vozes femininas em coro, as batidas determinantes da bateria, os riffs chorosos da guitarra, o órgão de fundo a rasgar as músicas, o saxofone a marcar o ritmo, a harmónica, o clarinete. Um instrumental genial, em sintonia com a voz crua, charmosa e nua de Staples. Perfeito.
Os Tinderstciks tornaram-se na mais sublime banda do inesperado, traçando singelos círculos fora do rumo que lhes estava implícito. Não deixaram de ser quem são, apenas se entregaram ao groove e ao jazz, de alma e de coração. Fiéis aos seus princípios e com 20 anos no bolso de uma panóplia invejável de temas, ainda nos fazem sorrir, chorar e sonhar, como fazem em cada álbum. Se isso não é ser genuíno, o que é então?
E a música é isto mesmo. É demorar uma eternidade na procura das palavras certas para a definir. É entender o porquê de nos arrepiar, de nos fazer sorrir ou chorar, é entender o porquê de nos fazer sonhar, mesmo quando estamos de olhos bem abertos. A música é aquilo que preenche os espaços deixados pelo ar. E os Tindersticks são mestres a preencher os espaços vazios dentro de nós.

 Músicas obrigatórias:

– This Fire of Autumn
– Medicine
– Come Inside