Quinta-feira 05 Dezembro 2013

The Bends


Falar de Radiohead é um grande desafio. Ok, confesso que adoro desafios e decidi ir em frente com este. Mas eis que me vejo, naturalmente, na obrigação de escolher um dos seus trabalhos e é aqui que a minha responsabilidade duplica: encontrar palavras que se aproximem da genialidade indescritível de um dos (grandes) feitos da banda: o álbum The Bends.
O que fará qualquer bom ouvinte de música pegar num álbum e por fim que este entre directamente para o seu top ten? Que a música seja boa, naturalmente, que consiga chegar-lhe à alma sem de lá sair sem antes lhe levar uma boa dose de tranquilidade e mais importante: motivos suficientes para fazer uso do botão repeat. Pois bem, apresento-vos uma lista de 12 canções que preenchem estes 3 requisitos (e tantos outros) na perfeição.
Precedente de Pablo Honey, que havia agradado os fãs pelo grunge introspectivo mas deixara os críticos a desejar, The Bends fez as delicias do público e, diga-se, da crítica também. Os Radiohead abandonavam o patamar do álbum que lhes dera a tremenda fama ao hit de nome Creep, e subiram mais uns quantos para provar que não são a típica banda de uma música só. É então que se introduzem no registo pelo qual hoje os identificamos tão bem, não soasse cada riff a algo único e singular. Importa, claro, referir que o álbum data de 1995, ano em que se estreou no Reino Unido, para um mês depois chegar aos Estados Unidos.
Planete Telex marca uma grande abertura, num espaço atmosférico em que Thom Yorke se mostra mais enigmático do que nunca. A maturidade acrescida faz-se mostrar, enquanto que o tom de voz acompanha esse ritmo e permite cada música destacar-se por conta própria. Partimos para High and Dry, escrita muito antes de Pablo Honey, e talvez o tema mais popular do álbum. É impossível não nos sentirmos aconchegados enquanto ouvimos a bateria de Phill ganhar uma nova pele e emergir. Fake Plastic Trees embala-nos num conjunto soberbo de cordas que colidem com uma voz doce e nos obriga a acompanhar a letra melancólica. Thom Yorke sabe exactamente onde quer chegar, e chega sem que seja muito o esforço. Bones e Just são duas músicas que fazem perceber até os mais distraídos de algo importante: estamos claramente na presença de um dos melhores guitarristas de sempre, Jonny Greenwood. Just é, inclusive, a que arrisco nomear a mais apetecível do álbum: guitarras enfurecidas, um solo soberbo e uma voz arrebatadora capazes de despertar uma vontade gigantesca de mergulhar uma, duas, três vezes em que todas elas revelam um novo pormenor, como se fosse sempre a primeira vez. My Iron Lung prima pel0 conjunto extremamente inteligente de acordes (especialmente o primeiro). O maior uso de teclados e a voz pesada tornam oficial que as marcas grunge de outrora ficaram lá atrás, é hora de mostrar mais alma, mais Radiohead. Street Spirit (fade out) fecha o alinhamento em beleza com mais da mesma genialidade: um casamento perfeito entre as construções melódicas e a competência vocal de Thom.
The Bends é um álbum extremamente sólido e coerente, que traz o que de melhor há no rock n roll dos anos 90, é ele que introduz um conjunto de letras que viriam a demonstrar a raiva, a angústia e os momentos depressivos de Thom Yorke, Curiosamente, estes culminam em melodias deliciosas que de entediantes nada têm. Para quem não acompanhou a leitura com a audição do álbum: corram, cliquem no play e percam-se naquela que asseguro ser a sensação que de mais próximo temos da magia. A vontade de deixar de ser e uma mudança de dimensão obrigada por um conjunto de músicas que são muito mais que músicas. A esta altura ainda a 6ª canção soa nos meus auscultadores, e até soar o último riff da última música, podem crer: sou feliz.