Quarta-feira 08 Janeiro 2014

Rock in Rio Douro


Casaca de cabedal, colete de ganga, cabelo ao vento, cigarro no canto da boca, copo de whiskey e eis um “chico fininho” à maneira. Não, não vou falar de Rui Veloso mas de uma banda que também fez parte do “boom” do rock português: os GNR. Ao lado de Variações, Jorge Palma, Heróis do Mar, Xutos, ao lado de uma sonoridade genuinamente investida no rock and roll e cantada em bom português, seguem-se bandas que marcaram a história da música portuguesa de uma maneira absolutamente notória.
Falo dos anos 80,  das televisões a preto e branco, das máquinas de escrever, da vontade de querer ser alguém fora do atraso intelectual que pairava na atmosfera cultural. Falo da convivência sem telemóvel, dos concertos que ficam só na memória, dos encontros naqueles determinados sítios depois do trabalho, das cartas de amor, de tudo aquilo que te fazia viver o mais próximo da essência do ser humano.
Rock in Rio Douro é a prova disso, do bom rock and roll que se fez e se faz em Portugal. Datado de 1992 e com os 80 no bolso, traz-nos muito do pop português à mistura e letras fascinantes, com a guitarra eléctrica a tomar conta dos teclados. Falava-se de uma banda que, neste mesmo ano, encheu o estádio de Alvalade. E devem ser poucas as bandas portuguesas a conseguir fazê-lo.
Hits como Sangue Oculto, Pronúncia do Norte, Ana Lee ou Toxicidade que passaram durante anos nas rádios e nos bares e fizeram com que os GNR atingissem o seu apogeu. De salientar, neste álbum, o dueto com Isabel Silvestre e Javier Andreu (La Frontera) e o salto que deram em relação ao álbum anterior, Valsa dos Detectives, de um melancolismo e introspeção para uns GNR poderosos e mais vivos. Rui Reininho, com a sua voz efectivamente marcante, tomava conta dos palcos e do público e com as suas letras só nos demonstrava que pensava além do seu tempo.
Não é que agora não se faça música tão boa como nos anos 70 ou 80; hoje em dia a oferta é gigantesca e a procura nunca é tão minuciosa como devia ser. Cabe apenas a cada um reter o que é realmente bom, afinal de contas, os nossos ouvidos funcionam como filtros, tal como os nossos olhos. Seja rock, seja pop, seja metal, seja indie. O que interessa é que nos faça sorrir, seja lá isso o que for.
E os GNR fizeram-me sorrir.