Quinta-feira 22 Junho 2017

NPS – Dia 3


Nos Primavera Sound 2017
Dia 3
10/6/2017

Chegou o último dia do NOS Primavera Sound e, com ele, a estranha sensação de proximidade do seu final, mesmo faltando muitas horas de música para celebrar. Um dia menos lotado que o anterior, mas, ainda assim, bastante preenchido.
Núria Graham foi a responsável pelo primeiro concerto do terceiro dia de festival. Não se pode dizer que estivessem muitas pessoas para ver a folk bem melódica da espanhola, pelo contrário. Já se viam muitos grupos deitados sobre a relva à espera do concerto que se iniciaria depois no Palco NOS. Não por ele ter sido mau, mas por ser um daqueles concertos que em ambiente festivaleiro, puxa a por a conversa em dia, convida ao já clássico deitar sob a relva ou até a um passeio. É uma banda sonora de fim de tarde, que nos transporta para o ambiente de bar, de conversas entre amigos e muito pouco para o que acontecia no Palco Super Bock. À excepção da versão de “Toxic” de Britney Spears, não podemos dizer que tenha sido mais do que um concerto agradável.
Songhoy Blues, pelo contrário, criou tudo menos um ambiente relaxante e de serenidade. A banda natural do Mali deixou a plateia inteira a dançar com o seu blues tuareg, cheio de ancas e mais diversão que o blues muito rock’n’roll mitificado pelos Tinariwen. Deram um concerto enérgico, conquistador, carregado de danças africanas, de riffs bem orelhudos e aguçados. O balanço destes Songhoy Blues é tudo menos indiferente e colocou todos, sem excepção, a mexer os braços e pernas da melhor maneira que cada um consegue. Tanto faz ser português como estrangeiro, alto ou baixo, ou qualquer que fosse a raça, todos dançaram, todos se divertiram e todos saíram a dizer isto foi uma festa. Foi esse um dos manifestos da banda durante o concerto e resultou muito bem.
De manifesto viveu muito do concerto de Elza Soares. A Veterana brasileira, emocionou-se muitas vezes pela entrega e reconhecimento do público português à sua obra. É  claramente um dos nomes que mais cresceu no nosso país desde o último ano. Foram imensos os concertos marcados em Portugal e todos eles parecem de uma importância gritante.
Sentada sobre um trono e rodeada de grandes músicos, Elza apresentou “A Mulher do Fim do Mundo”, um álbum poderoso onde o seu tema título nos deixa arrepiados. Fez-nos cantar em plenos pulmões “Maria da Vila Matilde” e “Pra Fuder”. Motivou-nos com  a importância que tiveram os seus manifestos anti violência doméstica, as suas palavras sobre a política actual ou todos os pedidos para sermos felizes.
Brooks Nielsen, o Vocalista dos The Growlers confessara em palco estar adoentado e que foi a incrível passagem pelo Vodafone Paredes de Coura em 2014 que fez a banda querer dar o concerto mais especial possível, para um público especial. A verdade é que sentimos mesmo durante a semana, que havia uma espera especial pelo concerto dos Growlers. Todos imaginávamos como seria disfrutar daquele Surf-Rock esquistóide, num espaço tão bonito como o do Parque da Cidade.
Em palco, a banda estava muito concentrada e cuidada o suficiente para deixar as honras da festa para o vocalista, onde este ia deambulando de lado para lado a apresentar o seu sorriso e a deixar-nos contagiar pela sua voz.
Com um concerto muito mais psicadélico do que aquele que trouxeram da última vez a Portugal, os rapazes sem querer dar por isso, foram fazendo a festa numa primeira parte do concerto, deixando para o fim uma onda gigantesca de psicadelismo. Era mesmo aquilo que a tarde precisava e por isso foi fácil ver olhos fechados a pensamentos na cover de “Good Name”, ou braços a balançar em “Chinese Fountain”. No final fomos levados até outros horizontes e danças em “I’ll Be Around”.
Sampha dava o passo de entrada para um fim de dia onde a electrónica inglesa se apesentava de diferentes formas. Agora a ganhar o seu nome próprio, a soul de coração cheio de Sampha misturou-se com todas as categorias que já conhecíamos na sua veia de produtor e deu-nos um concerto que variava constantemente entre as emoções mais profundas e ritmos poderosos, sempre prontos para nos colocar a abanar o corpo. O início do concerto com “Timmy’s Prayers” até começou morno, mas ainda cedo percebemos que este concerto ia ser uma das grandes revelações do festival e que muitas vezes Sampha nos iria deixar com o coração enorme e carregado; “Imcomplete Kisses” foi o primeiro deles. Mas houve tantos outros momentos: “Too Much”, “Plastic 100º”, o final com “(No One Knows Me) Like The Piano” com lágrimas a cair, enquanto Sampha a solo nos dava o Adeus. Foi um final impressionante, que se sente por todos os lados, mas que mesmo assim não conseguimos dizer como o melhor momento do concerto, pois ele foi tão carregado de momentos intensos. “Blood On Me” tinha provocado, momentos antes, uma autêntica explosão de adrenalina em palco, a versão de “4422” de Drake, deixou-nos a dançar como se não houvesse amanhã no momento mais uptempo de todo o concerto.
Em ritmo uptempo estiveram praticamente sempre os Metronomy, a banda de Joseph Mount e Anna Prior lançou-se ao ritmo com a desafiante “Back Together”, um hit de verão que puxa a diversão e as danças mais mirabolantes que uma pessoa se consiga lembrar. A partir desse momento foi uma sequência de singles a puxar cada vez mais a eletricidade. “Old Skool” manteve-nos em “Summer 08”, “The Bay” criou a loucura geral e marcou o início das visitas gloriosas a “ The English Riviera”.
“I’m Aquarius” arrefeceu um pouco os ânimos, mas foi só um curto momento para descansar os pés, pois “Love Letters” abriu pelo segundo tempo a pista de dança. “Night Owl”, manteve o ritmo bem alto, pelo menos durante mais uns minutos, até “Everything Goes My Way” deixar-nos mais uma vez um coração feliz e apaixonado. Anna Prior já é daquelas personalidades que deixa marca por onde passa. Com uma bateria super ritmada e synths do mais orelhudo e viciante que há, estes ingleses transformam-se numa das bandas mais cool do panorama actual. É impossível não dançar, não sorrir e sobretudo não aparvalhar seja como for. Maior prova disso, foi quando todo o recinto incluindo as pessoas que esperavam as suas bebidas, explodiram aos saltos em ”The Look”. Não há quem resista àquela linha de synths. “Resevoir”, encerrou um dos melhores concertos do festival, e fez-nos a todos pedir para que houvesse mais.
Contudo agora era tempo de punk. Os Japandroids, regressam a Portugal depois de uma longa ausência, mas confessam ainda se lembrarem muito bem do explosivo concerto de Paredes de Coura. Desde esse período a banda não andou muito activa, mas regressaram agora com “Near To The Wild Heart Of Life”, um álbum que mantem a chama punk bem ligada e que prometia um concerto bem agitado. A faixa título do nome disco abriu com a força toda, mostrou que não estávamos enganados quando pensamos que íamos levar uma tareia. “Fire’s Highway” tirou-nos algumas saudades de “Celebration Rock”, o álbum que colocou a banda nas bocas do mundo. “Heart Sweat”, deixou-nos a abanar a cabeça ao som das guitarras mais delirantes de todo o concerto e isto tudo acontecia enquanto o concerto ainda aquecia. “Younger Us” incendiou a plateia e claro já dava para sentir aquele encosto vindo do vizinho, mas nada disso é um problema quando se está num concerto destes canadianos.
“North East South West” terá honras de single e um vídeo filmado em Portugal, contava a banda antes de tocar o tema, curiosamente foi talvez o música mais calma de todo o concerto, afinal de contas estávamos a meio e era preciso guardar forças para o um final que foi uma correria. Em palco, apenas dois homens repartidos entre guitarra e bateria iam imprimindo uma energia contagiante, deambulando os seus corpos sob um espetáculo de luz vigoroso.
Contudo estávamos todos à espera do final do concerto, pois foi nesse momento que “The House That Heaven Built” foi tocada. É para sempre o tema clássico dos Japandroids, aquele que lhes fez a carreira e aquele que agarra as pessoas. É o momento de maior celebração e talvez por isso seja o momento onde o guitarrista sobe à bateria para os dois em conjunto criarem o melhor momento do concerto. Soube tão bem, mesmo o momento em que o Brian King depois de um salto mal dado, se arrastava com a guitarra pelo chão.
A maior tareia do festival estava, no entanto, para chegar. Aphex Twin, o cabeça de cartaz do último dia, completava a trilogia de eletrónica inglesa que o período noturno do festival nos oferecia. No entanto, ao contrário de Sampha e Metronomy, não há qualquer lado pop no seu som, apenas uma exibição da história da eletrónica, fase a fase, do mais calmo início, onde ritmos abstratos e ambientais tomaram conta, até aos períodos do techno mais pesado que já passou nas seis edições deste festival.
Houve Jungle, houve Electro, houve Breakbeat, houve Big Beat, houve uma maratona de lasers de todas as cores, feitios e desenhos a acompanhar vídeos onde Aphex Twin colocava o seu rosto no público ou editava imagens de figuras conhecidas da nossa praça pública, num conceito ultra cómico que nos retirou um pouco a atenção do som que Richard D. James ia misturando. Não escapou ninguém, vimos os Pastorinhos de Fátima, o Emplastro, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus e até o busto do Cristiano Ronaldo apareceu. Um verdadeiro serão de comédia, manipulado bem ao gosto do Aphex Twin enquanto material audiovisual. Tudo dividido em muitos mini ecrãs que nos iam dando aquilo que Aphex Twin sabe fazer melhor: demasiada informação por segundo. E talvez esse tenha sido o grande problema deste concerto, a sua quantidade informação, quer visual, quer musical. A sua loucura e extravagância, brindou-nos com um Techno ultra pesado, visceral, por vezes até próximo a uma música que se poderia ouvir numa feira popular ou até num ambiente fabril tal o peso e quantidade de vezes em que certas frequências de onda nos colocavam as mãos na cabeça.
É um artista e um concerto que não agradou a todos e isso foi fácil de ver pelas fornadas de pessoas que abandonavam o recinto a cada tentativa de tornar o concerto mais pesado e cru. O ataque industrial aos temas por vezes foi demasiado pesado e acabou a tirar muita da vontade de assistir durante duas horas a este concerto.
No entanto, Aphex Twin também é o artista e o concerto que agradou a muitos, pela sua potência, genialidade na mistura, por toda a história e ritmos diferentes que nos deu. Pelo incrível espetáculo visual.
Depois de tanta porrada que levamos em Aphex Twin, o Pitchfork veio relaxar um pouco o corpo e os ouvidos. Essa é a especialidade de Tycho e, para isso, ofereceu-nos um concerto com uma eletrónica bem ambiental e misturada no ponto certo com o Post-Rock. Não é pesado demais, nem é leve demais. Faz balançar e fechar os olhos como todo o bom Post-Rock, mas agita-nos a cabeça e a anca sempre que o beat e o ritmo aparecem de forma mais profunda. Foi pena os dois momentos em que o som do palco foi abaixo, porque nos dois momentos tirou o público do sonho a que estavam a ser submetidos. Uma pena, mas que não abalou uma das surpresas deste festival.
Bicep e Marc Piñol ainda estiveram a entregar os seus DJ sets para bastantes resistentes, no entanto nesses períodos, mesmo com a dança a picar o ponto, a cabeça já se prende nos festivais que se seguem e sobretudo na próxima edição. Foi um excelente NOS Primavera Sound. Teve muito bons concertos e um ambiente muito superior ao ano transacto o que ajudou e muito a viver um festival especial.

Até para o ano NOS Primavera Sound!

Fotos aqui