Terça-feira 20 Junho 2017

NPS – Dia 2


NOS Primavera Sound 2017
Dia 2
9/6/2017

Segundo dia de NOS Primavera Sound, agora com mais calor, um ambiente mais primaveril, mais palcos, mais bandas e muito mais pessoas. O muito aguardado regresso de Bon Iver levou à procura incessante por bilhetes, mas o dia tinha mais focos de interesse: a tour de despedida dos Swans, pelo menos no formato que conhecemos, os regressos de Nicolas Jaar (com um espetáculo especial) e do megafenómeno do psicadelismo King Gizzard & The Lizzard Wizard. Havia também mais capítulos do romance entre os Whitney e o público português ou as estreias muito esperadas no norte de Skepta e Angel Olsen. Muitos motivos, portanto, para um segundo dia totalmente esgotado.
Se as imagens dos concertos que encerraram a primeira noite do festival ainda circulavam pelas nossa memórias com um gostinho especial e em forma de saudades dos grandes concertos, o segundo dia não podia ter começado melhor, ditando desde muito cedo o porque de ser um dia muito esperado.
Os leirienses First Breath After Coma, foram os primeiros a subir ao palco e com sucesso máximo. A cada concerto, o post-rock destes meninos parece mais cheio, mais catártico, mais poético e, com isso, os concertos evoluem e de forma vista. São uma das bandas nacionais a ter mais em conta, quer em álbum, quer ao vivo onde se apresentam extremamente intensos, principalmente para o que habitualmente vemos às 17 horas. De qualquer modo, soube tão bem ouvir músicas como “Shoes For The Men With No Feet”, “Apnea” ou “Umbrae”, que teve direito a uma visita de Noiserv ao palco, ou o final apoteótico de “Blup”.
Com “30000 Megatons” arrancou de forma emotiva e apoteótica o concerto dos Pond. Com “The Weather”, o novo álbum ainda bastante fresco, os australianos, agora na sua terceira passagem por Portugal, estrearam-se nos palcos principais e cumpriram na perfeição a missão de nos fazer viajar múltiplas vezes durante o concerto. Mesmo numa slot não muito propícia ao seu som, a banda sacou cedo de trunfos como “Elvis’ Flaming Star” e pôs cabeça e pés prontos, para o que é afinal de contas um concerto de Pond hoje em dia. Uma gigante travessia por cores e sentimentos. Riffs refinados, paisagens texturadas e relaxantes, por vezes carregadas de um saber pop que nos põe a dançar sem complexos e vergonhas. Psicadelismo afinal de contas também é mexer o pé como se fez em massa em “Don’t Look At The Sun or You’ll Go Blind”.
Com a banda irrequieta em palco, bem à imagem do carismático Nick Allbrook, a festa foi-se instalando até ao Riff final de “The Weather”, um musicão que nos deixa com a lágrima no canto do olho e a desesperar por um novo concerto destes rapazes.
Quem já gerou esse falatório, foram os Whitney, a primeira banda do dia a carregar consigo muito público. Ao terceiro concerto em menos de um ano, a banda que já afirmou perder-se de amores por Portugal, em especial pela cidade de Lisboa. Era dos concertos mais esperados do dia, sobretudo pela empatia criada com os portugueses.
As músicas continuam a ser as mesmas, mas a ausência de novidade em nada esgotou o concerto dos Whitney. A banda é, claramente, daqueles conjuntos que torna tudo mais agradável, mais bonito, a transpirar felicidade e que nos obrigam a estar de sorriso posto enquanto olhamos para o que nos rodeia. Transpiram verão em “Dave’s Song”, faixa que abriu o concerto, com a mesma intensidade que sentimos na sequência instrumental final de “No Woman”. E isso só mostra o quão eficiente é o seu concerto, quantas músicas, como “Polly” e “Golden Days”, nos cativaram e nos fizeram dançar levemente a cada acorde de guitarra, a cada ritmo que os metais vociferaram. São uma grande banda e continuamos perdidos de amores por eles.
Angel Olsen parece estar a sofrer do mesmo romance que os Whitney. Também ela adora Portugal, da mesma forma que os seus dois álbuns parecem ter conquistado os portugueses. Talvez por isso, a sua estreia no norte tornou o concerto como o mais esperado até Bon Iver. Era muito o público que corria até ao Palco NOS, enquanto já se ouvia os acordes desafiadores de “High & Wild”.
“Shut Up Kiss Me” gerou um clima de festa e de vozes a cantar a música que provavam que ao segundo tema, Angel Olsen já era uma das vencedoras do dia. “Not Gonna Kill You” fez-nos pensar que podemos estar de cara com a nova PJ Harvey, pela garra como tudo era tocado e pela forma bem in-your-face como a voz de Angel Olsen nos é colocada. Mesmo falando de uma folk bem pessoal e ainda muito preparada para sala, foi um concerto carregado de coração, de garra, de emoções, de uma atitude que não se vê muito em songwriters. Ganhou mais uns quantos amores nesta edição do NOS Primavera Sound e prepara-se para ser um nome grande do futuro.
Enquanto Angel Olsen espalhava amor pela plateia numa uma parte do festival, os Sleaford Mods iam espalhando todo o seu sangue inglês puro. Canções minimais destiladas a raiva, fermentadas com garra e com um músculo bem inglês de quem não está bem com nada mas não tem papas na língua para o esconder. Deram tudo, a força toda, respiraram o ambiente e fizeram a festa com palavras grosseiras. No final mandam o microfone ao chão, missão comprida, passou por ali um riot.
Teenage Fanclub são um daqueles nomes que se tornam mais importantes num NOS Primavera Sound do que num outro festival qualquer. As atuações de bandas míticas, como estes escoceses, dos seus compatriotas Arab Strap ou dos Make-Up, já se tornaram o ADN do festival e há sempre curiosidade sobre quem são os próximos nomes que marcam mais um espaço de história no festival. Contrariamente aos Arab Strap que deram um concerto bastante eficiente, carregado de garra e que se mostraram bastante vivos e numa forma já não vista a muito tempo, os Teenage Fanclub apresentaram um concerto que apesar de sólido, nunca aqueceu muito. Marcaram claramente o indie que se faz hoje em dia, mas não se pode dizer que os temas tenham envelhecido muito bem.
Como todos os anos, o NOS Primavera Sound coloca sempre horas de escolhas difíceis, de um lado havia o sentido folk de coração aberto e de intimidade do Bon Iver, de outro o adeus à banda que mais marcou o rock de cara mais sónica, pesada e experimental dos últimos anos. O Emparelhamento entre Bon Iver e Swans foi um dos maiores problemas desde cedo encontrados por quem olhou direito para os hórarios.
No Palco, a banda de Michael Gira, voltava, como sempre, a colocar a carne toda no assador. Um concerto pesado a nível sonoro, mas sobretudo a nível emocional. O ínicio bastante relaxado de “Knot” foi enganador pois em poucos minutos já estava toda a plateia presa numa catarse que as guitarras lineares e potentes dos Swans disferem. Não é num ritmo avassalador, mas a forma como os temas são construídos e tocados quase em jeito de ritual, quase selvaticamente, som puros, duros, onde Michael Gira comandava através de movimentos de braços, ou de saltos, tudo isto enquanto as letras são substituídas por sons em jeito de voodoo por um ambiente de música e postura densa, suturna, psicadélica, onde a banda rebenta com todas linhas e possibilidades, abandona a ideia de ritmos e melodias e ataca ferozmente camadas, uma em cima das outras, cada vez mais intenso, cada vez mais alto, cada vez mais coordenados, não deixa ninguém indiferente.
Foram poucos os temas tocados, mas foram enormes, tanto no seu tempo, como na sua pujança. Levaram o público à loucura, principalmente em temas como “Screen Shot” e “The Glowing Man”.
Ao mesmo tempo no palco principal, Bon Iver trazia consigo um mega espetáculo para apresentar o seu novo e experimental “22, A Million”. Foi um desfilar de temas novos, transformados, esticados e que deram ao concerto visões novas e futuristas. Houve transformação no som da banda: são mais densos e exploradores ao vivo. Não apresentam medo de inovar, mesmo quando tocam nos temas antigos não eram ofuscados mas sim trabalhados de forma a se unirem ao novo espetáculo, como aconteceu sobretudo com “Creature Fear”, que fechou o concerto de maneira apoteótica e absurdamente bonita. Estas transformações já tinham acontecido em temas como “Perth”, “Holocene” ou “Towers”, no entanto nada comparado com o final que “Creature Fear” proporcionou. Foi todo ele tão imponente, tão mágico, tão cativante que mesmo quando Justin Vernon voltou primaria a solo para tocar “Skinny Love”, o tema mais esperado de todo o festival”, nunca esquecemos o que acabara de acontecer minutos antes. Foi um final esperado, bonito e com o valor simbólico que essa música apresenta para todos os fãs do projecto Bon Iver. Mas não deveria ter sido o final, não pelo menos depois de toda a intensidade de “Creature Fear” nos deu.
No Pitchfork, pouco depois, aconteceu talvez o início de um novo romance. Hamilton Leithauser, o ex-frontman dos The Walkmen, ainda tinha acabado de começar o seu concerto e já tinha posto centenas de pessoas de sorriso no rosto, a saltar e cantar “A 1000 Times”. Foi impressionante o resultado desse momento. O que uma grande música e um anúncio publicitário na altura certa são capazes de fazer. Um dos momentos mais magníficos do festival. Mas tudo isto é apenas a cereja em cima do bolo bem saboroso que foi ver e perceber a classe que transborda em Hamilton e nas suas novas músicas. Temas intemporais que devíamos todos ouvir. Um concerto que nos disse que a alma dos The Walkmen ainda não foi enterrada e que já tínhamos saudades de a ouvir.
De volta aos palcos principais, King Gizzard & The Lizzard Wizard devam a tareia do festival no Palco . . Um concerto rasgadinho, carregado de psicadelismo furioso e uma capacidade de tocar a todo o gás e com uma fúria esmagadora. Se há concerto para dar tudo é no destes rapazes.
Enquanto isso, no Palco NOS, Nicolas Jaar trazia um novo espetáculo, extremamente rico nos visuais, mais metódico e bem experimental, sobretudo no seu início onde apenas ruídos coordenados eram projetados das colunas. Não havia ainda um beat, uma linha condutora, um motivo para dançar ou imaginar ambientes. Era apenas uma linha de sons bem experimentais que abriam o conceito para tudo o que depois aconteceu. “Swim” abriu a pista a um espectáculo surpreendente, altamente psicadélico, muito mais para a mente que para os pés. E essa vibe manteve-se durante grande parte do concerto apesar de, a pouco e pouco, toda a linha psicadélica do concerto cada vez mais nos direcionar para a pista, para mover os pés, alguns até arriscaram o corpo e deram-se bem com isso. “Three Sides Of Nazareth”, mostrou-nos um Nicolas Jaar projectado de pernas para o ar, mas também um vocalista muito capaz. Fez-nos pensar no seu projecto, agora encerrado, Darkside. Já no final, e quando o sentido de sonho nos sugou a todos para dentro do universo que Jaar foi criando, “No” levou-nos a bailar sobre a voz espanhola do tema, foi o momento mais dançante de todo o concerto. Quem ainda se aguentava das pernas não teve nenhum medo de o mostrar.
Mais um grande concerto que aconteceu num dia carregado deles. Desde a brilhante abertura dos First Breath After Coma, até aos Swans, Bon Iver ou Pond. Podiam ainda ser mais os referidos, muitos mais. Um dia de NOS Primavera Sound que marcou e vai deixar saudades.

Fotos aqui