Quinta-feira 15 Junho 2017

NOS Primavera Sound – Dia 1


Nos Primavera Sound
Dia 1
8/6/2017

Com o início do mês de Junho, não só as temperaturas começam a subir, como aparecem também os festivais de verão e, mais uma vez, o Parque da Cidade voltou a ser a primeira paragem para muitos festivaleiros, desejosos de grandes concertos e do já clássico ambiente que o NOS Primavera Sound oferece. No seu sexto ano, o festival trouxe algumas novidades consigo, tornou-se mais jovem e com olhos postos no que é actual. Não se esqueceu dos regressos de bandas influentes, mas balançou os nomes históricos com mais novidades e sangue novo. Uma pequena mudança que trouxe ainda mais motivos para ansiar pelo início da edição 2017 do NOS Primavera Sound.

O facto do primeiro dia do festival ainda acontecer a meio gás, convidava a um calmo desfrutar da beleza do recinto, à habitual fila para a coroa de flores e para as primeiras cervejas e por esse motivo, Samuel Úria, o responsável pelo primeiro concerto, deu a sua banda sonora para o início de tarde ainda para uma pequena audiência. Nada que intimidasse o rock rasgadinho mas “gingoso”, e a folk de menino malandro e provocador dos temas da já longa discografia do Samuel Úria.
Foi um concerto que deu para um pequeno aquecimento e para os primeiros aplausos. Teve garra na voz, força nas guitarras, foi mais rock’n’roll do que se contava e até teve um Samuel Úria cheio de atitude e provocação em palco, mas que, no entanto, nunca traduziu mais do que uma pequena chama no público. Faixas como “Lenço Enxuto”, “ É Preciso Que Eu Diminua” ou “Carga de Umbro”, nunca conquistaram o público como elas merecem.  Acabando por ser a cover em bom português de “Molly’s Lips” dos Vaselines, intitulada como os “Lábios de Amália” e sobretudo “Teimoso” já no fim do concerto, os grandes momentos da primeira actuação do festival.
Do outro lado da clareira, no palco NOS, Greg Gonzalez e os seus Cigarettes After Sex, regressavam a Portugal, para continuar o romance criado no verão passado. Era sem dúvida um dos concertos mais esperados do primeiro dia e isso notou-se pelo claro aumento de público presente em relação ao concerto anterior. Na bagagem vinha agora o primeira longa duração de onde foi extraído “K”, um tema que mantinha as toadas negras e melancólicas que tanto marcam o som dos Cigarrettes After Sex. É a mesma dream-pop que cativou tantos corações, no último verão, mas que estranhamente, mesmo em temas antigos como “Nothing’s Gonna Hurt You Baby”, a reacção não pareceu estar a ser tão calorosa, como outrora foi. Não houve a mesma paixão, a mesma recepção ao grupo. Talvez pela hora do concerto, talvez por desconhecimento dos temas novos, que ainda ocuparam uma boa parcela do concerto, a verdade é que este acabou por se tornar algo monótono, demasiado frio e desinspirado, pelo menos até ao ponto onde “Afection” e a nova “Apocalypse” acabaram por acordar o público. Ficou no ar a ideia, que um novo encontro é necessário. Talvez agora em sala.
Por falar em sala, o concerto que une Rodrigo Leão e Scott Matthew foi criado para sala e isso nota-se em toda a sua existência, no entanto tornou-se interessante ver a forma como esta união não muito provável se consumaria num festival de verão. O resultado foi bastante interessante. Repleto de classe por todas as partes, um concerto muito equilibrado, refinado, onde os músicos deixaram um pouco de lado as suas origens, misturando-se em composições mais pop, gerando um ambiente novo, bastante orgânico e até fresco. Em nada se sentiu a falta da sala, até porque o ambiente natural acabou por abraçar o som quente gerado na voz de Scott Matthew e as composições do Rodrigo Leão, tanto quando estavam juntos em palco ou a solo. Se no caso de Rodrigo Leão tivermos direito a versões dos seus clássicos,  Scott Matthew, decidiu trazer à mesa as covers de “I Wanna Dance With Somebody” da Whitney Houston ou “Smile” do original de Charlie Chaplin.
Miguel por seu lado trouxe um concerto diferente dos primeiros três concertos, menos intimista, menos pausado, mas muito mais ligado à corrente e isso sentiu-se, e muito, num público que fez a festa junto com o som Pop/R&B do americano. Em palco entre saltos e todo o entusiasmo, Miguel mostrava uma entrega e um sorriso maravilhado com o que estava a acontecer. Um autêntico festim de canções orelhudas, danças e conversas com o público. Foi o primeiro grande concerto do dia e isso percebemos mal o Sample de “How Many Drinks?” atacou. No fundo gostando ou não do som de Miguel dificilmente alguém ficou indiferente ao seu concerto. E a temas como “Adorn.
Arab Strap veio ocupar o lugar de Grandaddy e cumpriu bastante bem. Alternou a dureza das guitarras de “Fucking Little Bastards” ou “Girls of Summer”, com um spoken-word bem carregado de Whisky de “New Birds”. Imprimiu em certos momentos batidas constantes e pesadas bem a lembrar os 90s em “Turbulence”, e manifestou-se fortemente o lado politico. Com isso aprendemos que é sempre bom ver com atenção aquelas típicas bandas míticas que o NOS Primavera Sound também trás, mesmo quando o seu nome não é dos mais conhecidos que pode oferecer. No fundo, soube a um concerto,de que mostra que está claramente aí para as curvas e que o seu ressurgimento foi uma coisa boa.
Foi já bem de noite, que os nomes fortes do dia apareceram. Run The Jewels era o primeiro dos três principais concertos, e se é verdade que não eram apontados como os Headliners, cedo deu para percebeu que iam ser tratados como tal, pela enchente de público fervoroso que os esperava. Com o concerto de há dois anos ainda bem presente na memória, o projecto de EL-P e Killer Mike é claramente um dos projectos a disfrutar de um maior hype e calor por parte do público nacional, isso notou-se pelo gigante entusiasmo mostrado seja qual fosse a música.
Punhos eram sincronizados como o do logo da banda, RTJ era gritado em conjunto e a banda cumpriu tudo o que era pedido. Uma verdadeira tareia desde “Talk To Me”, até “Run The Jewels”, já tocada num regresso a palco.
Foi uma hora constante de palavras e rimas políticas, manifestos, festa bruta, garra, muitos banger e até moshes. Houve de tudo! Foram tocadas muitas faixas dos três álbum e houve até direito a versão de “Nobody Speaks” de DJ Shadow. E que versão carregada de classe, diga-se.
EL-P, rendido à plateia, afirmava que não sabia quando, mas que um dia ainda iria viver no Porto. Percebemos o porquê, era fácil ver a loucura que se estava instalada em temas como “Close Your Eyes” e “Lie, Cheat, Steal”. Uma intensidade como em poucos momentos se assistiu no festival. Foram os temas que melhor definiram tudo o que aconteceu durante uma hora em que olhamos e dançamos cara a cara, com algum do melhor Hip-Hop do mundo.
Depois da verdadeira porrada que os Run The Jewels ofereceram, chegou altura de alguma paz, ou assim muitos pensaram, pelo número de pessoas que se encontravam sentadas para o concerto de Flying Lotus. Se o som é verdade que acalmou e se tornou bastante diversificado, os conteúdos visuais apresentados colocaram qualquer um de olhos bem abertos e profundamente submersos a velocidade e exuberância de todo o conteúdo vídeo.
Foi um espetáculo que definiu e apresentou tudo o que é Flying Lotus. Uma mescla de sons e de imagens, um mundo de encaixes, loucuras e imaginação que ultrapassa quaisquer coerências. Uma união de Eletrónica mais glitch, Hip-Hop, e muito do Jazz. Tudo regado numa cultura Pop muito vincada e num teor de brincadeira própria. Isto é um concerto de Flying Lotus, sempre poderoso, sempre imprevisível, sempre carregado de magia na forma como ia misturando os seus ritmos bem “jazzados”, como em “Putty Boy Strump” e “Ready Err Not com graves ultra potentes, imagens rápidas e carregadas de horror e ambientes futuristas. Houve tempo para músicas de jogos, apresentar o seu film “Kuso”, criar versões extremamente transformadas de “Antidote” de Travis Scott ou do clássico “Twin Peaks” e dar-nos muita dança nas febres eletrónicas de “Computer Face/Pure Being” e “Do The Astral Plane”. Para o fim ficou, claro, “Never Catch Me”, com Flying Lotus já na parte da frente do palco, meio que a dançar, meio que a conversar com o público em jeito de despedida. Vai deixar saudades.
Os franceses Justice regressaram a Portugal, agora para um concerto em nome próprio. Quem já os conhecia, sabia o que vinha aí, um festão poderoso de eletrónicas e um show de luzes que ia deixar marca e assim o foi mal “Safe and Sound”, o primeiro single do mais recente “Women” abriu e colocou todos a dançar. É um daqueles temas onde o baixo deixa rasto no chão, e os Justice aproveitaram esse factor para arrancar a festa em grande, poucos minutos depois já misturavam “D.A.N.C.E.” à festa, a loucura foi instaurada e a partir desse momento o concerto estava ganho, foi uma questão de surpreender minuto a minuto quer atrás dos visuais que iam sendo projectados de todos os ângulos, feitios e desenhos possíveis, quer através das já habituais misturas onde a potencia bem 80s de “Canon” enrijecia o concerto mas deixava entrar a classe de “Love S.O.S.” nos seus tempos, onde “Genesis” e “Phanton” se uniram para nos dar a maior porrada, com “Helix” a ser o energético para a dança. “Stress” muito modificada e estendida jogou com as nossas capacidade de ficar indiferente. Tudo isto em alto, em potencia, e bem carregado como todo o bom Electro deve ser. Com um espectáculo visual, super bem controlado, super inspirado, sempre diferente e com um ritmo excelente, não foi difícil sermos absorvidos para dentro de todo o espetáculo. Da destruição que  “Waters of Nazareth” provocou colocamos as mãos a cabeça quando depois de um gigante silêncio ouvimos “We Are Your Friends”.
“Audio, Video, Disco” mandou-nos para casa de sorriso posto, cara lavada, voz a treinar o refrão e pés cansados de tanto balanço. Rendidos a forma como fazem um live set tão complexo, parecer tão simples, a forma como cortam, colam, voltam a cortar para depois voltar a unir múltiplos temas nas suas sequências sem nunca parecer estranho. É um doce incrível de ser ouvido. É uma arte. São os maiores.
O dia 2 já espreita, mas para já, a memória junta as porradas e rimas intensas de Run The Jewels, a magia da mistura e o espetáculo frenético de Justice e a deliciosa banda sonora em tons de loucura de Flying Lotus, como os concertos a nunca esquecer.

Fotos aqui