Quarta-feira 03 Outubro 2012

Manel Cruz


Foi no Sinatra’s Café, onde os Ornatos Violeta deram o seu primeiríssimo concerto, ainda longe das câmaras e dos grandes palcos que conversamos um pouco sobre o mundo musical que pinta Manel Cruz. O músico, descontraído e sorridente, falou-me um pouco da história que o viu crescer, da sua juventude, de momentos arrepiantes e de projetos que com ele foram nascendo: Ornatos Violeta, SUPERNADA e Foge Foge Bandido são os carrosséis que marcam a esfera alucinante de um músico apaixonado pelo que tem, rendido ao que a vida lhe trouxe.

Como defines o som que produzes, fora dos paradigmas dos gêneros musicais?

Manel Cruz – Definir o som já é difícil e definir para que alguém o entenda tem de ser nesse contexto. Acima de tudo acho que os gêneros e os estilos que uma pessoa usa na música acabam por ser um pretexto cultural para te expressares à tua maneira. Acho que sempre tive mais influências no rock mas acima de tudo cativa-me o som dos instrumentos, ainda que a formação bateria-baixo-guitarra seja a formação com que eu mais trabalhei. Gosto da ideia do som e da plástica do som, das imagens que o som cria.

Sentes-te satisfeito com todo o teu percurso?

MC – Sim. Muito satisfeito.

Achas que o teu trabalho tem alcançado o valor merecido?

MC – Se é merecido ou não, não sei (risos). Mas acho que qualquer pessoa que faça o que quer que seja gosta de ser reconhecido. Eu sonhava muita coisa mas nunca imaginei o que iria ser. Sempre me motivou ser musico e ainda me motiva agora. Passo muito tempo nesse universo e nessas construções do que propriamente na parte do reflexo que tem nos outros. Às vezes imagino um reflexo de uma coisa e quando me apercebo já estou noutra. Acaba sempre por ser uma projeção.

Por qual projeto sentes mais afeto?

MC – Digamos que sinto afetos diferentes e é um pouco como os filhos. Pensas num e achas que é o teu favorito mas depois pensas no outro e também é o teu favorito. Felizmente, na música, nunca fiz coisas que não gostasse. Já tive momentos melhores mas sempre estiveram ligados ao prazer e aos amigos. Nos projetos de música procurei ver-me e expressar o que tinha para expressar e os Ornatos têm aquela parte do afeto do “primeiro amor musical”, sendo também grandes amigos meus com quem trabalho muito bem e que adoro. Os outros projetos só não fazem parte dessa paixão adolescente. Todos eles tiveram uma característica diferente, mesmo a nível pessoal. Os SUPERNADA são um tipo de humor, característico desse grupo de amigos. O Bandido também teve momentos incríveis e talvez, musicalmente, tenha sido o projeto onde eu sinto que experimentei mais coisas diferentes. Ao vivo, talvez o enunciado mais difícil no sentido em que tive de transpor uma liberdade total. Por exemplo, quando estás em casa podes fazer som a tocar num tacho ou a raspar na barba – eu não fiz isso, quem fez foi o Nuno Prata – mas coisas desse gênero que podes fazer em casa ou no estúdio e depois transportar esses sons torna-se complicado, uma vez que o nível de leitura se torna completamente diferente e o Bandido foi muito rico nessas experiências. Sempre estive ligado a pessoas que são minhas amigas, nunca convidei ninguém só por ser bom instrumentista. Procurei sempre uma identificação pessoal. Se o objectivo é a expressão, estar em comunhão com as pessoas cria por si só um ambiente mais intimo.

Os Ornatos reuniram-se em grande. A saudade e o amor que os portugueses têm pela banda sentiu-se em Paredes de Coura. Achas que os Ornatos ainda têm muito para dar? Ou preferes deixar a memória da genuinidade de um som que marcou a música portuguesa?

MC – Acho que prefiro deixar a memória porque nem era suposto dar este concerto. Surgiu pela vontade de todos e pela vontade de viver o reflexo dos fãs no dia… que agora vão ser 6 (risos). Mas a intenção passou por viver isso no momento e se continuássemos já não ia ser assim. É, acima de tudo, pelo gozo que nos dá a celebração disso. Se um dia fizermos alguma coisa juntos acredito que não se chame Ornatos Violeta porque os Ornatos acabaram há 10 anos. Nem eu próprio me sentiria muito bem com a dúvida se estaria a aproveitar-me do nome ou não. Como tenho confiança naquilo que quero fazer e naquilo que gosto de fazer não precisamos desse nome. Se aquilo que nós fizermos tiver qualidade vai prevalecer sem esse nome agarrado.

Diz-se difícil viver da música, muito mais num país como o nosso. Achas que é difícil manter a singularidade de cada banda, fugindo aos padrões do mercado musical português?

MC – Hum, há muitas maneiras de estar na música. Tu podes estar dependente financeiramente, como em outra área qualquer e tens de ceder a algumas coisas. Quanto menos dependente estiveres, menos cedências tens de fazer. Também tive a sorte de ser uma pessoa que nunca passou grandes dificuldades, isto é, sempre pude estudar, ter as minhas coisas. Se queria um instrumento passava algum tempo a convencer o meu pai e conseguia… E há pessoas que não, que não tem essa hipótese. E isso também me ajudou a tomar algumas decisões. Sempre tive momentos em que era tentador tomar determinadas opções e há sempre o pensamento de poder fazer aquilo ou aqueloutro, comprar um instrumento melhor, mais material para a banda, entre outros e, não me ter faltado o essencial foi um facto para dizer não! a determinadas coisas que podiam ter sido limitações. Deixa que o tempo leve a que tenhas aquilo que precisas mas sem comprometer o que fazes. Houve, de facto, muitas propostas mas estávamos todos certos do que queríamos.

Mas voltando à pergunta, sim, é difícil. Acho que é muito complicado viver da música e viver de tudo. Hoje em dia vais ter de fazer coisas para pessoas que não gostas, lutar por objetivos em que não acreditas para conseguires fazer disso vida. Não podemos ser tão fundamentalistas porque, às vezes, por causa de um simples ideal, estás a perder montes de coisas interessantes. No entanto, é sempre difícil conseguires essa distância para avaliares o quadro. E depois há as empresas que fazem os festivais que estão a descaracterizar completamente o mercado da música, o que acaba por motivar muito mais o aparecimento daquelas bandas relâmpago. Tens sempre espaço para a tua opção mas a verdade é que não é fácil.

Como foi escrever “O Monstro Precisa de Amigos”?

MC – O Monstro foi um disco um pouco sofrido. Auto-crítica e auto-análise, numa altura de exteriorizar todas as dúvidas e todas as certezas negativas do meu existencialismo.
JR – Pois, é o período crítico da juventude.
MC – Mas eu ainda sou jovem (risos). E já lá vão 20 anos.. E esqueço-me que o tempo passa. Mas foi um disco mais sentido, muito mais sinfônico.  Rebuscado no sentido da harmonia, mais épico.

Na tua opinião o que falta ao panorama musical português?

MC – Não identifico nada que falte. É um panorama muito vasto e há muitos gêneros de atitude, uns com que me identifico mais, outros menos. Faz falta atitude na independência das bandas para fazer música, para gravarem as suas coisas à sua maneira. Falta também um país e um mundo mais justos, mais conscienciosos e menos disparatados para que as pessoas consigam ter um conforto sem estar a pensar em estratégias de sobrevivência. Muitos músicos que eu conheço fazem música para ganhar dinheiro para fazerem música novamente e tudo o resto é secundário. Era bom que as pessoas tivessem um conforto… não se trata de luxo, é o ar com que as pessoas funcionam… não trabalharem demasiado e serem felizes. Devia ser assim. Não é esta merda que se vive agora.

Relativamente aos outros projetos sei que primas pelo experimentalismo e pelo melódico, a procura de novos sons e momentos que fiquem entre um presente e um passado. O que é criar música que fique no tempo?

MC – Isso é inteira responsabilidade das pessoas que a ouvem e que espero que continuem a ouvir. Ainda que ache que tenha a ver com a música não penso que seja um acaso total porque há muitas bandas que acabaram e não aconteceu o que aconteceu connosco. Mas o tempo gira em fenômenos sociais e são as pessoas que fazem com que a música seja intemporal. Porque acho que a música em si não o é.

Para terminar, há algum conselho que queiras deixar às bandas que estejam a começar?

MC – Paixão… é tudo.

 

 

Um agradecimento gigantesco ao Manel Cruz por toda a disponibilidade. 

 

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