Sábado 10 Dezembro 2011

GON


Rui Silva, mais conhecido por GON foi vocalista dos tão adorados ZEN e faz parte de diversos projectos do panorama musical português tais como Plus Ultra, The Bombazines, Rubber Sessions, Hiena, usando parte do seu tempo para graffitar, pintar, escrever poesia e ainda é music selecter em vários bares e festas.
Genuíno e confiante, disponibilizou-nos algum do seu tempo para uma pequena conversa descomprometida, entre risos e opiniões, numa mistura de sentimentos e troca de experiências, enquanto nos deliciávamos num bom jantar.

Os ZEN são um projecto antigo, mas marcam o panorama musical português com a sua musicalidade funk e rock n’ roll. Pensaste que alguma vez chegariam até onde chegaram?

GON – O que aconteceu com os ZEN foi diferente. Durante 2 ou 3 não tive nenhum contacto com eles, nem sequer os via. E o ano passado decidimos juntar-nos pelo facto de haver uma geração que ouvia falar dos ZEN e que conhecia o disco do Hard Club, mas que nunca tinha tido a oportunidade de nos ver ao vivo. Eram muitas as pessoas que vinham ter comigo e me pediam constantemente que déssemos mais um concerto. E a partir do momento que passaram 10 anos sem tocarmos, mesmo estando envolvido em outros projectos, achei que era a altura perfeita para darmos esse concerto que tanto queriam ver. Fizemos a proposta ao Jorge Coelho que é o guitarrista original mas ele não pode e convidamos o Marco, aquele que vocês viram nas Noites Ritual que está neste momento a tocar com o Pedro Abrunhosa, juntamente com o nosso baixista Mike. O André Hollanda está neste momento a tocar com o Jorge Palma. O Marco também estava à altura e era uma das nossas preocupações. Saber se havia um guitarrista capaz de tocar connosco porque não é para qualquer um, principalmente viver a intensidade que aquilo tem de ter.
Uma vez, em Braga, atirei-me para cima do pessoal, e enquanto me empurravam para o lado do palco tentei agarrar a grade e foi em vão. Caí. Faltavam duas músicas para acabar o concerto mas nem olhei para a mão. Quando entrei no Camarim tinha o dedo ao contrário. Desmaiei e acordei no hospital (risos).

Com a inesperada notícia dos ZEN terem mesmo terminado, que projecto teu gostavas de partilhar connosco?

GON – Vou falar-vos um pouco sobre os Plus Ultra onde estive cerca de 2 anos. A banda acabou e nós vamos tentar editar um triplo disco. O símbolo da banda é um triângulo invertido e o que nós queremos fazer é pegar nesse triângulo e fazer dele uma pirâmide, com três lados e cada lado vai representar uma coisa: o DVD, o álbum e um CD de samplers onde vamos meter 500 waves só com partes, ou eu aos berros, ou partes de guitarra e partes de bateria, todas já feitas de maneira a que tu possas pegar naquilo e construir uma outra música ou fazer remix. O álbum que nós nunca editamos com 8 ou 9 temas e o DVD com excertos de concertos.
Antes disso tive com os Bombazines que posso desde já dizer em primeira mão que é provável que voltemos a fazer algo. Neste momento estou num projecto com o baterista dos Ornatos Violeta, numa cena só electrónica. Tive durante uns tempos uma banda de versões, Rubber Sessions onde juntava músicos muitas vezes só para fazer covers de funk ou de soul… chegamos a tocar muita coisa da música negra, tipo James Brown e Prince. Tínhamos 3 ou 4 elementos fixos e depois íamos rodando. A Marta Ren que cantou comigo nos Bombazines muitas vezes cantava connosco na Rubber Sessions. Como eu trabalhava no Hard Club, a Rubber era uma maneira mais fácil de eu estar em contacto com os músicos. Tenho também um tributo a Jimi Hendrix, The Experience, há cerca de um ano e meio.

Para além de um excelente músico, és também graffiter e tens um gosto especial pela poesia. Para quando um livro ou uma exposição?

GON – Agora que deixei o Hard Club tenho mais tempo para os meus projectos. Finalmente aluguei um estúdio onde tenho a minha tralha toda para poder começar outra vez. A última vez que expus foi em 2004 e estou a preparar trabalho novo de pintura e de escrita. A poesia que escrevo é muito parecida com as minhas letras. Como vivi em Inglaterra durante dois anos, comecei a pensar em inglês e quando a minha cabeça vai para o lado poético já penso em inglês. Tanto utilizo a poesia para guardar, como para as minhas letras. Tenho muitas coisas guardadas, são coisas intemporais. E sei que um dia ainda vou usar tudo isso.
Com música é exactamente igual. Quando nos reunimos para voltar a tocar, havia muitas músicas que já não faziam sentido. Tocamos músicas muito antigas, tipo a Porno Love ou Power iz Evil, e eles não queriam tocar isso porque já não lhes soava tão bem.

Quais as expectativas para os ZEN em 2012?

GON – Os ZEN acabaram. Nas Noites Ritual demos o último concerto. Para quê descer a fasquia? Passados 10 anos, estamos perante 11 000 pessoas, tudo a curtir! No final não queres mais nada.
O que quisemos mesmo com esta última reunião dos ZEN, com estes cinco concertos, foi mostrar-nos uma uma geração mais recente, que sabíamos que tinha curiosidade e gostava do nosso som, mas que na realidade nunca nos tinha visto ao vivo! Agora terminados, posso porém adiantar que há um interesse em fazer uma coisa nova, mas não se vai chamar ZEN.
Quando tocamos na Expo 98 tínhamos muitos mais fãs em Lisboa do que no Porto, mas muitos mais mesmo. Hoje em dia acredito que seja o oposto. Na altura ainda havia muito menos informação que hoje. Nem fotos tinhas. O que fosses ver, tinhas que reter na mente. Bons tempos! Agora vês o que quiseres no teu sofá, sem te preocupares. Comodismo.

Na tua opinião, o que achas que falta ao mundo da música portuguesa para que hajam mais oportunidades para as bandas de garagem?

GON – Haver mais bandas de garagem e comportarem-se mais como bandas de garagem. É o grande problema porque sais da garagem e já queres roaddies e cachês. As bandas não sabem o que é comer o pão amassado pelo diabo. Não tens que ter problemas em tocar para 50 pessoas, em palcos pequenos, é dos melhores concertos que podes dar.
Outro problema é a muito pouca originalidade. A tendência é sempre copiar um guitarrista x ou y e comprar a guitarra dele. Porque é que o grunge surgiu? Porque é que o heavy metal surgiu? Foram originais e criou-se uma onda à volta!
Deveria existir uma rede de suporte entre bandas, mas não há! Eu vou tocar aqui e quero que vocês me venham ver e vice-versa. As ondas à volta das bandas existem quando existe uma rede total de apoio. Existe também muita falta de modéstia por parte das bandas. Não precisas de técnico nem de roaddies para dar concertos! É muito legítimo quando metes a mão naquilo que fazes. Suar por isso. Suar pela banda.
A coisa mais importante da vida é não deslocalizares o assunto e se o assunto é música é música. Se soa bem, é bom. Se soa mal, é uma merda. Não tens que ser bonitinho nem ter toda a roupa certinha.
O que falta à maior parte das bandas é tudo isto e o facto de não serem na realidade aquilo que tentam transparecer ser.

Até que ponto a cidade do Porto e o que te rodeava na tua juventude influenciou o teu processo criativo?

A minha vida foi sempre tomada pela música. Estudei na Soares dos Reis, uma escola de artes do Porto e fui para lá muito novo, com 12 anos. Essa mudança levou-me a criar amigos que não eram os de infância. Eram artistas com cultura musical e então comecei a trocar cassetes com eles. Tudo o que ouvíamos de novo, tudo o que curtíamos e tudo o que não curtíamos, era gravado e dávamos uma a cada um. Éramos 3 a fazer isso. Tínhamos sempre música nova. Eu devo ter em casa para aí 3000 a 4000 discos e 500 são lixo, não toco, mas ou curto a capa ou são uma banda carismática ou é o primeiro álbum de algo que só mais tarde se revelou. Tenho de tudo e todas estas experiências acabaram por influenciar.

Quais são as tuas grandes influências?

GON – O meu pai e a minha mãe.
A nível musical, Fugazi, a primeira fase de Nine Inch Nails, Led Zeppelin, o grunge, os Nirvana, Pearl Jam, aquele grunge antigo.
Lembro-me perfeitamente do impacto que o Nevermind teve em mim. Ouvia-o ainda em vinil, vezes de seguida, sem me cansar. Chegava ao fim e voltava a tocar.
A nível da vocalização marcou-me muito Faith no More e sou totalmente fanático pelo Jimi Hendrix. Gostava muito de o ter conhecido. Identifico-me realmente com ele. Fez as coisas mudar e até hoje ninguém o iguala na essência da música, porque foi um dos gajos mais genuínos no mundo da música. Continuo a ouvir e a gostar imenso.
James Brown mais a nível de liberdade dentro da própria música. Era um grande improvisador e aprendi a viver com o erro porque faz parte da vida. Esse é outro problema das bandas novas, porque não sabem o que fazer quando dão um prego! Têm problemas em lidar com isso, mas faz parte.

Como é a música…?

A música é alien. Se desligares agora o botão ela não toca, mas está lá. Está em todo o lado. Penso sempre nela. Vem de nós e está presente.