Quinta-feira 13 Fevereiro 2014

Caravana Doors


Na passada Sexta Feira do presente mês de Janeiro, o Woodrock Bar, situado em Marco de Canaveses dedicou a noite a uma das bandas que mais marcou os anos 60: os The Doors. Rui Pedro Silva, seguidor atento da banda, marcou presença no evento e fez a apresentação do seu livro Caravana Doors. O Tympanum foi até lá para saber mais sobre o escritor e todo o seu trabalho.

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Recordas o primeiro episódio em que o interesse pelos The Doors despertou em ti?

Rui Pedro Silva: “A primeira «tomada de consciência» da existência dos Doors aconteceu aos 7 anos num aniversário de um amigo. Todavia, e embora a informação tenha sido diminuta, despertou algo que seguiu vida fora. Antes desse acontecimento, lembro-me desde muito pequeno de ficar encantado a ouvir o «Light My Fire» a passar na rádio em casa dos meus pais. Não fazia ideia nenhuma de quem era e o que era, mas aquele som apaixonou-me.

Falando do trabalho da banda, qual é o álbum ou álbuns que mais gostas ou que te dizem mais?

RPS: “Todos. Impossível escolher um, incluindo o «The Soft Parade» que sofreu criticas pesadas pela diferença que impôs (os Doors são diferença, são o imprevisto). Cada álbum tem uma marca distintiva que reflecte a evolução da banda e laivos característicos de momentos que foram fundamentais na carreira. São seis álbuns de estúdio completamente distintos uns dos outros. Aliás, em cada álbum, cada música é bastante diferente entre si. Essa é uma das marcas distintivas dos Doors. Poderia ser tentado a escolher o primeiro e o último álbum. O primeiro The Doors pela excelência de diversidade, poder, pela simplicidade com muito conteúdo em clássicos como «Break on Through», «Light My Fire» ou o magistral «The End». O último álbum L.A. Woman pelo regresso à simplicidade do trabalho em estúdio, por ter sido feito «virtualmente ao vivo», pelo regresso e exploração dos blues e produção de grandes temas como o «Riders on The Storm» e a própria «L.A.Woman». Mas… e o resto? Para mim é impossível descartar faixas que considero clássicos do rock como o «Love Me Two Times», «Moonlight Drive», «People Are Strange», «When The Music’s Over», constituem a espinha dorsal do segundo álbum, o Stange Days. Inimaginável anular o excelente Waiting For The Sun, o terceiro álbum onde constam malhas incontornáveis como: «Hello I Love You», «Love Street», «The Unknown Soldier», «Spanish Caravan» e «Five To One». No quarto álbum, The Soft Parade, o patinho feio para a crítica, seria um sacrilégio ignorar o sucesso e carácter da «Touch Me», a força do shaman transcrita na «Wild Child», a beleza de «Wishful Sinful» e a confrontação de Jim Morrison na «The Soft Parade». No magistral Morrison Hotel, o quinto álbum, seria criminoso anular o «Roadhouse Blues», um dos clássicos que constituem o DNA do próprio rock, a fantástica viagem no «Waiting For The Sun», a declaração de amor no «You Make me Real», a fantástico/perturbadora «Peace Frog» e a bela e solitária solteirona «Maggie M’Gill» a quem o pai não deixou herança. Portanto; escolher um ou mais que um álbum em detrimento dos restantes seria, para mim, apresentar a experiência Doors pela metade.”

Sabemos que tens amigos em comum com a banda, nomeadamente com o Jim Morrison, qual é a ideia que te passam acerca da sua relação tanto em palco como fora dele?

RPS: “Todos eles sentem-se reais, privilegiados por ter feito parte da experiência Doors. Os que trabalharam directamente com os Doors em palco/estúdio consideram que foi um dos momentos mais fabulosos das suas existências. Sabiam que estavam a trabalhar com senhores músicos e em contrapartida recebiam da banda o reconhecimento que lhes era devido. Jim Morrison, ao contrário da maior parte da mitologia que existe sobre ele a dar ênfase ao seu «lado negro», era sem dúvida um homem de excessos, mas em simultâneo também era amigo, justo e bastante generoso. Existem várias provas da sua generosidade e juntamente com alguns destes amigos e até estranhos tive o privilégio das ilustrar no meu primeiro livro: «Contigo Torno-me Real». Só quando Jim bebia em demasia (algo mais trivial a partir de finais de 1968), ele podia viajar da amizade, bondade e generosidade até a um estado de confrontação extremo em poucos segundos. Todos eles mencionam a sua imprevisibilidade, mas nenhum esquece o enorme sentido de humor que Jim tinha (e muito raramente é referenciado em livros/filmes) e os momentos fantásticos que passaram com os Doors (mesmo em períodos difíceis como o pós concerto de Miami em 1969). Na verdade, muito poucos tiveram o real privilégio de lidar de muito perto com Jim Morrison, Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore. Quem o teve, sente ter vivido no «Olimpo» do Rock…

Na tua visão pessoal, o que faz dos The Doors uma banda de referência geração após geração?

RPS: “Os Doors são uma banda marcada pela juventude. Terminaram abruptamente como quarteto em 1971 com a morte do carismático vocalista Jim Morrison. Naturalmente que ao morrer com 27 anos, ficou mitificado para sempre como jovem rebelde do rock e isso torna-se bastante apelativo para as renovadas gerações que têm o primeiro contacto com os Doors. A maioria identifica-se com a imagem do «Jovem Leão».Todavia, isso é apenas o primeiro contacto, a rama. O lado primeiro, mais visível, porque a verdadeira referência Doors passa muito além do forte impacto criado pela imagem de Jim Morrison. Jim Morrison é o lado sensual, bonito, poético, «shamânico» e de atracção imediata nos Doors. Um dos ícones maiores de sempre da cultura popular. Mas a imagem por si mesma só perdura no tempo se existir real sustentabilidade. Portanto, no reverso da beleza do invólucro existe um bom conteúdo que torna os Doors a tal banda de referência geração após geração. O «segredo» está também na força do legado, o som único e inimitável de cada um dos discretos músicos dos Doors, nas letras fortes, profundas, belas, negras e visionárias de Jim Morrison. Nas letras simples, existenciais, magníficas e fundamentais de Robby Krieger, o carácter de opinião da banda que os destacou das restantes, a modernidade que trouxeram para o rock e todo um estendal de características factuais que os tornaram únicos e descrevo nos meus livros: «Contigo Torno-me Real» e «Caravana Doors». Devido à diferença que impuseram e impõem, o certo é que os Doors surgiram em 1965 e nos anos seguintes criaram um encantamento que se propagou em ondas de novo entusiasmo pelas décadas seguintes. Conforme surgiram em 1965, poderiam ter aparecido nos anos 70, 80, hoje ou daqui a trinta anos, na certeza que seriam únicos e continuarão a ser detentores do real dom da intemporalidade.

Como te ocorreu a ideia de partir em viagem à procura de mais sobre os Doors, e posteriormente escrever um livro sobre eles?

RPS: “Foi um processo natural, no sentido da continuidade de um estudo. Começou com uma tese de licenciatura em «Ciências da Comunicação» sobre o contraste entre o mito de Jim Morrison. Depois com muito esforço, muito trabalho e muita dedicação fui construindo um longo e por vezes penoso caminho ao longo de mais de uma década de investigação profunda e sistematizada. Após a minha primeira incursão a Paris junto de Ray Manzarek (organista dos Doors) e Danny Sugerman (ex manager e co-autor do Daqui Ninguém Sai Vivo), recebi convites para realizar o meu primeiro livro. Todavia, realizei esse trabalho com a liberdade que considero fundamental para a pesquisa e o resultado desejado poder fluir.

Quais os maiores obstáculos que encontraste para a realização deste livro, e, por outro lado, as melhores recordações que guardas? Sentes o teu trabalho reconhecido cá em Portugal?

RPS: “É impossível mencionar os «maiores obstáculos» na realização de obras da envergadura do «Contigo Torno-me Real» e «Caravana Doors». Existe uma série de grandes dificuldades objectivas a diferentes níveis em investigações internacionais, especialmente quando se trabalha com «direitos de autor», com mais de uma centena de fontes de craveira nacional/internacional e no outro quadrante quando a existência de evidências físicas é quase ou mesmo inexistente e dificilmente se chega a testemunhos verbais com pessoas que naturalmente nem sempre se lembram de detalhes importantes que já se encontram na penumbra da memória (como aconteceu com ex- colegas de turma de Jim Morrison e Ray Manzarek na UCLA). São inúmeros os obstáculos, mas se fosse fácil não teria qualquer sentido para mim. As melhores recordações? Hummm… daria uma enciclopédia de memórias. Mais de uma década de muito, muito, muito trabalho e honras que me orgulham de sobremaneira, especialmente com os Doors, staff original, amigos do rock em Portugal, vários pontos na Europa, Estados Unidos e de outros pontos do globo, com o meu querido e saudoso amigo Darryl Read com quem fiz vários eventos Doors em Portugal (um deles estivemos com Ray Manzarek, amigo mútuo que me deixa também uma enorme saudade) e no exterior, na minha adorada UCLA, em Paris, etc. São inúmeras as recordações e no fundo os livros reflectem parte dessas experiências com pessoas e locais embora centradas na investigação Doors. A questão do reconhecimento é sempre relativa. Em Portugal sinto o trabalho admirado e reconhecido na imprensa (ao longo dos anos), junto dos fãs dos Doors que me acolhem com bastante entusiasmo e bastante simpatia (muito obrigado). Embora o meu primeiro livro esteja editado há mais de uma década, naturalmente surgem sempre fãs que contactam com o meu trabalho pela primeira vez. Isso é inevitável, da mesma forma que a cada dia muita gente, de diferentes gerações, têm o primeiro contacto com os álbuns dos Doors. Por outro lado, o nosso mercado é pequeno, mas a experiência mostra-me que há sempre espaço para se fazer apresentações, palestras em livrarias, escolas, universidades, etc. Haja vontade de trabalhar, organização, interesse, seriedade e mais de meio caminho está feito. Recebo convites também nacionais nesse sentido, mas naturalmente poder-se-á fazer muito mais – e tento sempre fazer mais- para que trabalhos desta envergadura com reconhecimento internacional que destacam o nosso país na investigação (inclusive em universidades prestigiadas nos Estados Unidos, ex UCLA e UC Berkeley) cheguem mais facilmente a promotores, outros programas televisivos/rádios e outros públicos espalhados pelo país, ilhas e comunidades portuguesas e falantes da nossa língua no mundo.

Pretendes continuar esta pesquisa sobre a banda e, quem sabe, escrever mais um livro? É possível chegarmos a encontrar mais livros teus, mas desta vez sobre uma outra banda ou artista?

RPS: “A pesquisa é uma realidade dinâmica. Estamos sempre a aprender e nos Doors existem vários tópicos que ainda não têm uma resposta definitiva. Na UCLA a minha pesquisa foi mais além do material que serviu de base ao meu livro «Caravana Doors», totalmente concebido na universidade de Jim Morrison e Ray Manzarek. Se um dia editar esse material remanescente, terei de estar satisfeito com o resultado total (não concebo a edição pela simples edição). Será diferente dos já diferentes livros que tenho e especialmente será o meu muito obrigado póstumo ao Ray Manzarek por tantos anos de salutar trabalho/convívio e o apoio especial que sempre me deu nesta minha estadia na UCLA, a sua universidade de cinema. A esteira da homenagem estende-se naturalmente ao John Densmore e Robby Krieger e ao também fantástico James Douglas Morrison. Quanto a livros sobre outras bandas ou artistas, realizei participações pontuais em livros que fui convidado a participar e embora tenha convites para fazer obras sobre outros artistas, neste momento tenho outras prioridades. Seja como for, poderá acontecer…

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Ao Tympanum cabe, mais uma vez, agradecer toda a disponibilidade de Rui Pedro Silva pela cedência de informação sobre todo o seu percurso, assim como a toda a equipa do Woodrock.