Domingo 27 Maio 2012

António Costa


Os Ermo são um projecto bastante recente mas que têm dado que falar. Saltam na corda da melancolia e roçam a barreira do estranho, estes dois artistas naturais de Braga (António Costa e Bernardo Barbosa). Cantam poesia e tocam melodias peculiares e singelas. Não se remetem à música nem às notas que arrancam dos instrumentos. Agarram-se aos sentimentos e puxam-nos até ao limite. Limite esse entre o sentir e o pensar. O limbo da música, fora do tempo e do lugar.

Porquê Ermo?

António Costa – “Ermo” é um nome que eu já queria dar a um projecto meu há muito tempo. Quando comecei a produzir música com o Bernardo achei que seria o momento adequado para o pôr em prática. O nome funciona não só como uma etiqueta do projecto mas também como um conceito que surge como uma linha charneira para aquilo que queremos fazer e nessa medida, vista a definição da palavra, é o tentar fazer algo que ninguém está a fazer agora.

Onde e como nasceu este projecto?

AC – O projecto nasceu cá em Braga, no Verão de 2011 quando eu e o Bernardo nos conhecemos. Na altura eu tinha um projecto de indie-folk com gravações de qualidade execrável e o Bernardo, tendo-as ouvido, ofereceu-se para produzir um tema meu. Isto resultou numa música com uma “boa” produção mas dessa vez o conteúdo é que seria então o menos. Uma semana mais tarde, voltámo-nos a juntar para tentar fazer algo novo e aí decidimos juntar-nos como um projecto de dois elementos sob o nome “Ermo”.

Dizem que não têm um estilo definido. Baloiçam entre o post-folk, o acústico e uma espécie de indie à mistura. Quando pensaram em fazer música, tinham algum estilo concreto em mente ou deixaram-se levar pelo prazer de criar e permitir que a música moldasse a vossa personalidade?

AC – Não é que não tenhamos um estilo definido, nós é que não nos preocupamos em dar um nome ao que fazemos. Sabemos que para as pessoas, etiquetas para música são como pasto para os bois e eu, falo por mim, gosto que se vejam confusas para categorizar o que tocamos, até porque definir um género não é assim tão importante. Quanto à tua pergunta: deixámo-nos levar. Este é o tipo de música que criamos juntos.

Definam-me então a vossa personalidade, em sentenças poéticas, porque sei que a poesia vos fascina.

AC – A nossa personalidade? Falo por mim, sim, de facto gosto muito de poesia e creio que dá para perceber muita coisa pela qual me interesso através da música que nós fazemos mas acho que não tenho maturidade que chegue para sequer definir a minha personalidade.

A arte define-se pela (in)consciência do artista. Se tivessem que pintar a vossa música, como seria o quadro final?

AC – Acho que preferia ver o quadro que as pessoas pintariam da nossa música do que ser eu ou o Bernardo a fazê-lo. Mas respondendo mesmo à tua pergunta, na minha opinião, aquilo que define Ermo visualmente são as capas que o Bernardo fez para as promos que vendemos e gravámos em casa em finais de 2011. Uma delas com imagens de pessoas idosas numa colagem e com o William Burroughs entre elas e a outra que só se fizeram dez cópias e acabaram por esgotar numa noite, num concerto no Porto, todas pintadas em acrílico, feitas totalmente à mão, em papel, todas distintas umas das outras. Actualmente estamos em parceria com o Rui Itálico, um ilustrador extremamente dotado e ele tem percebido muito bem aquilo que nós queremos transmitir quando urgimos por transpor a música que fazemos para uma imagem.

A história de Braga tem influência na vossa música. Em que sentido?

AC – Tem, claro. Acho que hoje em dia é muito difícil para uma banda em Braga não ter isso a carregar aos ombros. No nosso caso, posso dizer que temos enormes influências da música bracarense mas não só. A mística da própria cidade abala sempre a maneira de pensar de quem nela habita e Braga é uma cidade carregada disso e creio que ilustramos isso bastante bem no que fazemos.

Interessa-vos a poesia e o experimentalismo. A procura de novos sons, de mecanismos e de organismos. O tradicional e o contemporâneo. O que é para vocês criar música fora de um tempo e de um lugar que assenta, ao mesmo tempo, no passado e no presente e, quem sabe, num futuro?

AC – Para nós é como tentar juntar tudo o que temos da melhor maneira. Nunca nada nos foi dado de mão beijada e não tendo quaisquer tipos de recursos financeiros, tivemos de nos desenvencilhar com aquilo que tínhamos: freeware de produção musical, samples que estão ao acesso de toda a gente, um microfone velho dos anos 90 que quase toda a gente tem em casa, uma guitarra acústica e um ukulele. Tentando juntar tudo isto, acabámos por juntar também as nossas apetências pelo tradicional e o contemporâneo num panorama musical que talvez estivesse a precisar disso mesmo e acho que é por aí que se pode pegar em Ermo: temos a veia tradicional portuguesa muito vincada na nossa música no que toca às nuances, lá está, tradicionais, que lhe damos, conjugada com o experimentalismo que nos é natural.

E os ventos, esses “que choram (…) sem querer ver”, para onde vos levarão?

AC – Levar-nos-ão onde tiverem de nos levar. Acho que enquanto projecto musical temos feito boas decisões e está tudo a correr bem. Para já, aquilo com que estamos mais preocupados é com o nosso EP que contamos lançar em Setembro e com a cassete que vamos gravar e também lançar até ao final deste ano. Estamos também a preparar bastantes surpresas para ir lançando nos próximos meses, mas isso mais tarde há-de aparecer.